sábado, 16 de agosto de 2014

Bem querer

Queria que lá fora
 Chovesse como aqui dentro
Queria que pudesse embora assim
Deixar de morrer por dentro

Queria as forças do poço
Da mola que pulsa lá dentro
Queria da gota da chuva
Um pouco do passo que é lento

Queria do sono profundo
Acordar em novo invento
Queria do inverno soturno
Acordar em verão turbulento.

Dias

Tem dias que chove
No fundo, no lado de dentro
Tem dias que nem se move
Profundo, intenso lamento.

Nesses dias se entope
E não há quem prove
Que há vida cá dentro.

Há dias nem mundo remove
Insiste e não se recolhe
Do infinito e mais puro tormento.

domingo, 10 de agosto de 2014

Fora de hora

Encurralada num canto
Atrás do sofá
Debaixo do pano

Esmagado coração
Coloca as botinas
Se estremece no chão

Abre-se a porta de fora
Fecha-se o espaço de dentro
Adentra o mundo lá fora
Finda-se o dito lamento.

Mundo não escolhe hora
Não bate na porta

E sai eu sem demora.


quinta-feira, 19 de junho de 2014

A incrível geração de mulheres que foi criada na contradição.

Realmente, como disse Ruth, não somos criadas para ser o tipo de mulher que o homem quer. Fomos criadas para ser boas profissionais, falar várias línguas, ser pró ativas e principalmente independentes. Não cozinhamos muito bem, mas lemos os clássicos, não sabemos passar roupa, mas lemos os jornais e sabemos tudo o que acontece no mundo. 

Pode parecer absurdo, mas também fomos criadas para casar e ter filhos. Compramos uma imagem de que a felicidade está na vida a dois, ou melhor, a três... de preferência a cinco (um marido, dois filhos e um bichinho de estimação). A casa bem cuidada, o marido feliz, as crianças correndo... não são esses até hoje os comerciais de margarina? Não é esse ainda o final da telenovela?  A mulher conquistou seu espaço, mas a imagem do seu futuro ainda é arraigada em preceitos antigos: casa, casamento, filhos que devem combinar com independência, proatividade, cultura, inteligência. Só de escrever já me sinto sufocada com tantas necessidades. Não seriam contraditórios sonho e realidade? O que buscamos e aquilo com o que sonhamos? 

Serão as mulheres independentes (financeira e emocionalmente) felizes sem uma família nos moldes margarina? Essas mulheres (poderia dizer nós) cresceram  vendo a mídia, a escola, a família e a sociedade venderem para ela a imagem de que esse é o modelo de felicidade."Não quer casar? Não quer ter filhos? Como assim? Em que mundo você vive, mulher?" "Ah, tenho certeza de que isso é uma defesa, que de no fundo esse é seu sonho." 

 Sim, pode ser. Mas na busca pela sua independência, esse sonho pode acabar ficando para trás. Não estaríamos entrando em uma incoerência sem saída?  E não deveríamos admitir que para muitas mulheres sim, esse é um sonho difícil de se conquistar? Devemos então ficar presas a uma imagem de felicidade, frustradas por ter conseguido emprego, independência, liberdade e cultura, e não família e filhos?  Ah...faltou amor... um companheiro pra vida, um amante, um ombro pra descansar... Mas essa necessidade é interna de cada uma, e não tem ligação estreita com família e filhos... pode haver um, dois, três, cinco amores e vinte viagens na vida de uma mulher e ela se sentir feliz, completa e desejante ao mesmo tempo. 

Ainda depois de tanto tempo, nós mulheres, mais do que nunca, vivemos uma contradição sem fim... uma contradição que é tripla: o que queremos, o que devemos querer e o que conseguimos dessa vida. 


sábado, 26 de abril de 2014

Girassol

Dança com passos lentos e delicados
Rodopia como bailarina sozinha no meio do salão.

Plantou várias sementes
Nasceu girassol
Outras se foram
Outras não vingaram
Mas o girassol amarelo
Desabrochou na janela

Volta a brilhar como sol
Volta a dançar
Solta e só no salão.

Mas já não importa
Gira como a flor na janela
E pra girar não precisa de par.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Passo apertado
Corre rumo ao rosto colado
Às mãos espalmadas
Ao traço fechado

Corre o espaço livre
Se fecha em pedaços
Do medo enroscado
Em pedaço descolado.

Mãos que fogem do peito aflito
Carrega dentro de si um apito
Apito não pode parar
Som não pode se espalhar.

Passo apertado
Peito descolado
Espera
Não alcança
Não enxerga
Tropeça.

Não mais enxerga estrada branca
Azul esfumaçado que tomou conta.
Não sabe se ainda se vem dos olhos, ou do caminho.
Se vier dos olhos, nada ainda é findo
Se do caminho
 melhor seguir pelo atalho
rumo ao ponto de partida.

Não quer viver do mesmo
Não quer recair em erro esmo.
Mas parece chave que dobrou a esquina
Botão que não vê mais casa de saída.

Espera, reflete, não descansa.

terça-feira, 25 de março de 2014

Medida

Não falo demais
Não falo de menos
Não lanço os plurais
Não sou de remendos.

Acerto a medida
Comedida nos passos.
Me moldo às rimas
Colando os pedaços.

Não saio do traço
Nem transbordo dos laços
Sou pedra tolhida
Sou sombra ante os espaços.

Polida na vida
Me vigio todos os passos.