terça-feira, 8 de novembro de 2011

Poema pendular

Oscilo entre o doce e o amargo
Entre o escuro e o claro
Entre a pureza e a solidão

Oscilo entre vento, temporal
Cais, mar, âncora e chão
Oscilo entre um lado e outro
Como um pêndulo que não se encontra são.

Oscilo entre vida e destino
Acaso e verdade
Pássaro suspenso
Semente plantada no chão
Oscilo entre paz e dor
Suspiros e louvor

Oscilo porque não posso
Oscilo porque não meço
Oscilo no espaço
Crasso

Oscilo entre mente e corpo
Espaço e pedaço
Cheio e vazio
Perene e Fulgás

Oscilo entre medo e ar
Dessassosego e perdão

Oscilo porque não posso
Não meço, padeço, mereço
Oscilo tentando parar.
Não paro.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Sentidos

Sempre
Nunca
Acaso
Verdade
Senso bom
Sentido ruim

Vida que segue
Acaso que passa
Destino que embassa

Sim e não
Casa abraço
Embaraço do lado
Virado pro chão

Senso de vida
Sentido partido
Caço palavras
Caço sentidos
Pra sentir

Despretenciosamente

Um tempo de mudanças é tempo que se amadurece sem saber como. A gente só se dá conta do que fez, do que sabe, do quanto andou, quando trilha caminhos parecidos. Assim dá pra descobrir a genialidade da vida. Poder passar por diversos caminhos, olhar pra trás e ver os atalhos que pegou, os que deram certo, os que levaram a outros rumos, os que tinham mais espinhos, os que levavam a lugar nenhum...
A delicadeza certeira da vida se mede pelas aprendizagens. É encantador ter a chance de viver várias coisas de formas diferentes, de aprender com os erros, de refazer, reviver, sempre num movimento em espiral. "Um homem não entra no mesmo rio duas vezes." O homem rio já não é o mesmo, o homem também não.
Me orgulho dos meus acertos assim como prezo cada um dos meus erros, cada tropeço, cada queda vivida, sentida, chorada, frustrada. Do chão não passa, já dizia a minha mãe. "Opa, caiu? Ah, foi só um susto" diziam as professoras da escola antes que a criança começasse a chorar pela queda. "Levanta, limpa o joelho e volta a brincar". Que seria da gente se ficássemos parados com medo de levantar, e tornar a cair?
As vezes sinto que a vida nos leva de volta aos mesmos pontos, como se dissesse: "Tenta de novo." E se a gente tenta e ainda não conseguiu daquele jeito, ela espera o susto passar e novamente nos bota frente ao mesmo ponto, dizendo: "E agora, quer tentar de novo?"
As vezes tentar de novo não significa querer acertar, e sim saber tentar. Aliás, me pergunto onde fica o acerto, será que há mesmo um fim a se chegar? Ou o importante é o caminho, o que a gente aprende com ele, os que passam por ele, o que os outros aprendem com a gente. Não é isso que fica? .Tudo é aprendizagem,já dizem por aí...
 "Você um dia vai rir disso tudo, acredite!" "Tudo passa". São frases que a gente tá tão acostumado a ouvir das mães, avós e conselheiras, e que na hora do aperto, a gente diz "Você diz isso porque não é com você." Claro, e justamente por isso. Na hora do temporal a gente quer que passe mesmo. Quer mandar a dor embora, juntar os pedacinhos bem juntinhos pra ver se eles grudam de novo. As vezes a gente consegue, as vezes, não. As vezes em muito tempo, as vezes não. Mas que passa, passa... e a temos a oportunidade divina de olhar pra vida novamente com olhos curiosos, apaixonados, extasiados.Não é a toa que essas frases viraram senso comum. Não é a toa que a maturidade faz bem. Há que se ganhar alguma coisa com o envelhecer do corpo, com a história, com o tempo, com as tempestades. Nem que seja o fato de não dar tanta grandeza pra elas, nem que seja botar um belo casaco e um enorme guarda-chuva pra enfrentar o tempo lá fora. Nem que seja pra se surpreender porque ela passou antes de você descer do onibus e você nem precisou do guarda-chuva.
Crescer é aprender a conviver com os "nao sei" "talvez" da vida... porque no fundo ela tudo mesmo um grande não saber. Não se sabe a hora de nada, não se pode controlar o tempo, o acaso, o destino.  É a vida é uma sucessão de supreender-se, de caminhos que não se sabe onde vão dar, de cruzamentos imprevisíveis, novos atalhos...
Sempre quis entender tudo, explicar o inexplicável e, saber o fim da linha, prever o futuro! Sempre tentando evitar surpresas, boas ou ruins. Assim não me decepcionava, mas também não tinha alegria das boas surpresas! Tentava prever o fim de um caminho, antes de começar  a andar, pra poder escolher se ia mesmo por ele ou se tentava outro mais seguro. Se alguém me falava de um filme, perguntava antes se o final era triste ou feliz, na intenção de decidir se veria ou não. Com isso perdia o meio, o caminho, o processo. Quantas coisas poderia ter aprendido com um simples filme de final triste? Talvez esses sejam esses os melhores...
Viver despretenciosamente é mais leve, mais tranquilo, e também mais difícil.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Tempo e espaço.

O tempo perdido no tempo
O tempo perdido no espaço
O tempo perdido na espera

O caos misturado em passos
Passos pra trás, pra frente
Passos e entre passos
O que fica no meio?

A espera do tempo
Tempo que se move no caos
Tempo que não espera
Espera que não suporta a chegada
Chegada do ponto final.

Medo do tempo
Medido no espaço
Sem passo no claro
Passo que anda no escuro
Passo às cegas, cadarço no chão.

Tropeço, queda, levante, em diante.

É o tempo do passo.
É o espaço do escuro.
Sobre a alma, sente a espera.
Espera que não dá passo.
Espera que não dá tempo.

terça-feira, 8 de março de 2011

Amor guardado

Eu tenho um mundo de amor
Amor que não cabe nos braços
Amor que não cabe dentro em si.

Amor que quer correr e abraçar
Amor que quer viver e se dar
Amor que é maior que o mundo.

Amor que enfrenta a terra, o céu
O limite, o sol, o inverno.

Eu tenho um mundo de amor dentro de mim
Amor destinado
Amor traçado
Amor certo

Amor sem medo de ser piegas
Amor sem medo de se dar
Amor que precisa de espaço
Amor que precisa de tempo.

Eu tenho um mundo de amor pra dar
Pra sorrir
Pra cantar
Pra olhar.

Amor que já não cabe mais em si
Amor que precisa ser dado
Amor que precisa de destino

Não cabe mais dentro em si
Não sabe mais viver dentro
Precisa ir
Ser levado, ser amado.

Eu guardo dentro de mim um amor sem fim
Amor guardado, amor criado, amor que se basta
Amor pra ser dado, que cresce, toma conta.

Amor que precisa do ser amado.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

 "Diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz"

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Arte Extraordiária

O Na Corda Bamba dá uma pausa nos poemas intensos para falar em prosa sobre uma experiência incrível vivenciada há menos de três horas.
Trata-se do filme " Lixo Extraordinário", que conta a história de diversos catadores de lixo (ou catadores de material reciclável, como eles mesmo se entitulam) que participaram das criações de Vik Muniz.
A expressão, a história e até a dor de cada personagem, aliada a vontade de mudar o mundo do artista, nos traz um traço de como podemos entender e exergar a dignidade humana.
Talvez esses, que viviam (digo viviam porque não vivem mais, mudaram de vida) imersos em sujeira, micróbios e expostos a doenças, misturando carne humana com lixo; experimentando de uma qualidade vida que muitos sequer consideram vida. Esses são talvez cidadãos dos mais dignos que já pude ver.
O filme mostra uma vontade de mudar o mundo, misturada com uma mudança de mentalidade, de sensibilidade e autoestima trazida pela arte. E é ela, junto com a dignidade, a personagem principal desse filme.
É a arte a combinação de sons, palavras, gestos, cores, materiais que geram uma reação em cada pessoa. Em certo momento Vik pergunta a Sebastião se alguma coisa deixa de ser arte porque não desperta nenhum sentimento ou  se isso ocorre por falta de conhecimento. A própria discussão dos dois, como na Maiêutica em que o professor tira do aluno o conhecimento que já está dentro dele, leva Tião a chegar a conclusão de que arte necessita sim, de conhecimento para ser apreciada como tal.
A mudança que a arte provoca na vida de cada um, o auto reconhecimento de cada um como ser humano e ser atuante no mundo. Os próprios foram transformados pela arte e foram meio de transformação na vida de diversas outras pessoas, assim como essa que vos fala.
A arte está então em juntar peças diversas de maneira única, juntar mateiriais desconexos de tal forma que outro não faria. Duas pessoas não pintariam o mesmo quadro com as mesmas tintas.
A arte está então na manisfestação interna de cada um, do desejo e não desejo transformado em produto interno. Daquilo que não pode ser exprimido como real total. A arte é o interior de cada um se utilizando de cores, pincéis, argila, palavras, bronze, mármore.
A arte então deixa de ser a mera reprodução para ser a produção única e autônoma de cada indivíduo acerca daquilo que vê, acerca das transformações que faz dentro de si, da maneira como enxerga e vive o mundo.
A arte pode estar em um simples olhar diferente para o céu azul do verão? Ou é necessária uma experiência e um produto concreto e externo para que deixe de ser sentimento e vire arte?
Vik Muniz e seu trabalho com os catadores, junto com obras e obras vistas, olhares e olhares perplexos sobre pinturas, me levaram a toda essa reflexão acerca do que é arte, por que se faz arte e entender que todos sim, somos artistas, a partir do momento em que todos nos expressamos no mundo de alguma forma.
Seria possível viver no mundo sem arte?
Talvez os próprios catadores ainda não tivessem podido experimentar o mundo com arte, talvez não tivessem ainda se dado conta da arte na própria vida.
Tião diz: "Um dia ainda vou comprar meu quadro de volta". Um devaneio talvez para quem o enxergue somente como um catador de lixo que teve uma pequena oportunidade dada por um artista de reconhecimento internacional e que, deslumbrado, teria que voltar a sua vida de pobreza e miséria. Pra mim, Tião é um sujeito pensante, atuante, reflexivo e detentor dos próprios sonhos e do rumo de sua vida.
Definitivamente não foi só o dinheiro das obras que transformou a vida dessas pessoas.
Foi a arte.